Pesquisa sobre os egressos de escolas cristãs

A formação espiritual ocupa lugar central na missão das escolas cristãs. Em uma cultura marcada pelo declínio da participação religiosa, pela desconfiança em relação às instituições e por uma secularização crescente, contudo, as perguntas sobre o quanto as escolas realmente moldam as trajetórias de fé de longo prazo de seus egressos tornaram-se cada vez mais urgentes. As escolas conseguem cultivar padrões de crença e de prática que perduram para além da adolescência e que adentram a vida adulta?

Um novo relatório do Cardus, intitulado Enduring Faith: Patterns of Religious Practice and Values Among Religious School Graduates (Fé que Permanece: Padrões de Prática Religiosa e Valores entre Egressos de Escolas Religiosas), investiga essas questões a partir da análise de quase uma década de dados do Cardus Education Survey (CES). (Cabe observar que as figuras para download, juntamente com todas as referências, encontram-se disponíveis no relatório completo.) O CES trabalha com amostras nacionalmente representativas de adultos norte-americanos com idades entre 24 e 39 anos que estudaram em escolas públicas, em escolas cristãs protestantes, em escolas católicas ou em escolas independentes não religiosas, bem como aqueles que foram educados em casa (homeschooling). A pesquisa examina um amplo conjunto de desfechos, incluindo a escolaridade alcançada, o engajamento cívico, a saúde mental e a formação da fé, controlando variáveis demográficas fundamentais para estimar os efeitos próprios de cada setor escolar.

Este novo relatório concentra-se especificamente na religiosidade ao longo do tempo, comparando os dados das edições de 2014 e de 2023 da pesquisa. São examinados três indicadores comuns de prática religiosa: a oração, a leitura da Bíblia e a frequência aos cultos/celebrações religiosas. Em conjunto, essas medidas oferecem uma janela tanto para a dimensão privada quanto para a dimensão comunitária da fé.

Resultados para os egressos de escolas cristãs

O achado mais consistente ao longo de quase uma década de dados é que os egressos de escolas cristãs protestantes continuam a relatar os mais altos níveis de engajamento religioso na vida adulta. Em comparação com os egressos de escolas católicas, de escolas independentes não religiosas e de escolas públicas, os egressos de escolas cristãs protestantes mostram-se mais propensos a orar regularmente, a ler as Escrituras e a participar de cultos religiosos ao menos semanalmente. É importante destacar que esses padrões permaneceram mesmo após o controle de um amplo conjunto de características demográficas, incluindo a formação familiar e a criação religiosa. Em outras palavras, os resultados sugerem que a própria experiência escolar contribui de maneira significativa para a prática religiosa duradoura dos egressos.

Ao mesmo tempo, o relatório também revela sinais de uma mudança cultural mais ampla. Entre 2014 e 2023, os egressos de todos os setores escolares apresentaram quedas na frequência aos cultos religiosos. Os egressos de escolas cristãs protestantes ainda participavam de celebrações religiosas em índices superiores aos de seus pares de outros setores, embora eles também tenham experimentado quedas significativas, de modo particular na frequência aos cultos.

Esses achados refletem, com grande probabilidade, dinâmicas sociais mais abrangentes. A pandemia de COVID-19 desorganizou a vida congregacional e acelerou tendências que já existiam rumo à participação digital, ao isolamento social e ao distanciamento das instituições. Padrões mais amplos de secularização e de declínio da filiação religiosa também seguem reconfigurando o cenário religioso para os jovens adultos em todos os Estados Unidos. Os dados do CES sugerem que mesmo comunidades dotadas de fortes tradições de formação da fé não estão imunes a essas pressões.

Práticas escolares e desfechos espirituais

Ainda assim, o relatório aponta também para algo esperançoso: nem toda escolarização religiosa parece moldar os egressos da mesma maneira. Uma das análises mais instigantes do estudo avança para além da comparação entre setores escolares e passa a examinar as diferenças existentes dentro dos próprios setores de escolas religiosas. De modo específico, os egressos foram questionados sobre o quanto sua escola de ensino médio os preparou para “ter uma vida espiritual ou religiosa vibrante”. Aqueles egressos que relataram uma “preparação forte” foram comparados com aqueles que descreveram sua preparação como mais frágil.

As diferenças foram notáveis: os egressos que acreditavam ter sido bem preparados espiritualmente por suas escolas mostraram-se muito mais propensos a se dedicar regularmente à oração, à leitura da Bíblia e à frequência aos cultos religiosos na vida adulta. Eles também se mostraram mais propensos a relatar uma crença firme em Deus e na vida após a morte, a experimentar a presença de Deus de maneira regular e a identificar a religião, o casamento e a família como valores pessoais muito importantes. E, novamente, os egressos de escolas cristãs protestantes situados no grupo de “preparação forte” relataram os mais altos níveis em quase todas as medidas avaliadas.

A formação espiritual ocorre por meio dos hábitos, das relações, das práticas e das comunidades que moldam aquilo que os estudantes, em última instância, amam e buscam. As escolas participam dessa obra ao lado das famílias, das igrejas, dos pares e da cultura mais ampla. Os achados do CES não sugerem que as escolas determinam integralmente os desfechos de fé de seus egressos. Eles sugerem, contudo, que as escolas podem desempenhar um papel significativo e duradouro. As escolas que integram de modo mais intencional e coerente sua missão formativa à vida cotidiana da instituição mostram-se mais propensas a cultivar padrões de fé que perduram entre os egressos.

Uma fé que perdura

Os resultados deste novo relatório devem suscitar uma reflexão importante por parte das escolas. Com que intencionalidade as escolas cultivam hábitos de oração, de adoração, de serviço e de comunhão capazes de sustentar os egressos ao longo da vida adulta? As escolas ajudam os estudantes a integrar a fé à totalidade da vida, ou as experiências espirituais permanecem amplamente compartimentalizadas dentro das atividades religiosas formais? O que significa, afinal, um estudante deixar a escola sentindo-se genuinamente preparado para uma vida espiritual vibrante?

Em um momento cultural marcado pelo declínio da confiança nas instituições e do engajamento religioso, essa possibilidade reveste-se de profunda relevância[1]. Embora as escolas cristãs não possam controlar todas as forças que moldam os jovens, elas têm a capacidade de cultivar comunidades nas quais a fé seja praticada, encarnada e entretecida à vida cotidiana do aprendizado. E, de acordo com os dados do CES, quando as escolas realizam bem essa obra, os efeitos duradouros perduram muito para além da formatura.

Sobre a autora

Dra. Lynn E. Swaner é presidente do Cardus para os Estados Unidos, acadêmica de atuação pública e estrategista organizacional, doutora em liderança organizacional e possui diploma em estratégia e inovação. É editora ou autora principal de livros. Atua ainda como pesquisadora não residente no Center for School Leadership da Universidade Baylor e como senior fellow da Association of Christian Schools International (ACSI).

 

[1]Nota de adaptação para o contexto brasileiro.

Os dados do CES referem-se à realidade norte-americana, na qual a educação cristã protestante possui uma tradição institucional consolidada, com associações nacionais como a ACSI, currículos estruturados e décadas de pesquisa longitudinal. No Brasil, o movimento de escolas cristãs confessionais é mais recente e heterogêneo, e ainda não dispomos de um instrumento longitudinal nacional equivalente ao CES que acompanhe egressos ao longo de décadas. Ainda assim, as tendências apontadas no estudo dialogam diretamente com o cenário brasileiro: o avanço da secularização entre os jovens, a queda na frequência a cultos após a pandemia de COVID-19 e o crescimento dos chamados “desigrejados” (pessoas que mantêm fé pessoal, mas se afastam da vida congregacional) já são fenômenos documentados por institutos de pesquisa religiosa no país. Recomenda-se que as escolas brasileiras tratem estes achados como hipóteses de trabalho a serem verificadas localmente, por meio de pesquisas próprias com egressos, antes de qualquer generalização direta dos percentuais norte-americanos. A principal implicação para as escolas cristãs brasileiras filiadas à ACSI Brasil reside em três frentes.

  • Primeira: a constatação de que o “efeito escola” persiste mesmo após o controle de variáveis como formação familiar e criação religiosa confere legitimidade pedagógica ao investimento intencional em formação espiritual; a escola não apenas reflete a fé recebida em casa, ela contribui de maneira mensurável para a permanência dessa fé na vida adulta.
  • Segunda: a diferença mais relevante do estudo não está entre setores escolares, e sim dentro do próprio segmento cristão, entre escolas que preparam bem para uma vida espiritual vibrante e aquelas que o fazem de forma frágil; isso desloca a pergunta institucional de “somos uma escola cristã?” para “com que profundidade e coerência integramos a cosmovisão bíblica à vida cotidiana do aprendizado?”.
  • Terceira: a formação que perdura nasce de hábitos, relações e práticas comunitárias que moldam aquilo que o estudante ama e busca, em vez de experiências espirituais compartimentalizadas em momentos devocionais isolados. Isso reforça a necessidade de uma articulação orgânica entre escola, família e igreja local, integrando a centralidade de Cristo a todas as áreas do currículo.