Os resultados mais recentes ajudam a enxergar desafios que ultrapassam as médias: leitura profunda, atenção, esforço intelectual, tecnologia, desigualdade e a própria finalidade da educação.
O PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) 2025 avaliou mais de 760 mil estudantes de 15 anos, representando cerca de 33 milhões de jovens em 91 países e economias. Ciências foi o domínio principal desta edição, acompanhado de Leitura, Matemática e resolução computacional de problemas. O novo ciclo também amplia a discussão sobre aprendizagem no mundo digital, uso de dispositivos e inteligência artificial. Na tabela principal de desempenho, que ordena os participantes com base na média em Ciências (o domínio principal deste ciclo), o Brasil ocupa a 68ª posição.

As avaliações internacionais podem revelar sintomas relevantes da cultura educacional, especialmente quando os mesmos sinais aparecem em muitos países ao mesmo tempo. O relatório ganha valor quando deixamos de tratá-lo como uma tabela de posições e perguntamos o que seus dados revelam sobre os hábitos intelectuais que estão sendo formados. O que acontece quando uma geração permanece anos na escola e, aos 15 anos, ainda encontra dificuldade para compreender textos, interpretar evidências, sustentar a atenção diante de uma tarefa complexa ou resolver problemas fundamentais?
Brasil: estabilidade em um patamar que ainda exige reação
O Brasil permanece em uma zona de estagnação preocupante. O desempenho médio brasileiro está significativamente abaixo da média dos países da OCDE em todas as disciplinas avaliadas:
- Ciência: O Brasil atingiu 409 pontos, enquanto a média da OCDE é de 482.
- Leitura: Registramos 408 pontos, frente aos 461 da média da OCDE.
- Matemática: Este é o ponto mais crítico. Com 377 pontos, o Brasil situa-se abaixo do patamar de 380 pontos, que representa o “Nível 2” de proficiência básica (a média da OCDE é 463).
Estar abaixo do Nível 2 em matemática significa que o estudante brasileiro médio tem dificuldades em tarefas cotidianas essenciais, como comparar unidades e preços em um supermercado. A gravidade se consolida no dado de que 43,8% dos alunos brasileiros são “baixos executores” nas três áreas simultaneamente, comparado a apenas 19,7% na OCDE.
O Brasil permanece 73 pontos abaixo da média da OCDE em Ciências, 53 em Leitura e 86 em Matemática. Em comparação com 2022, houve variação de +6 pontos em Ciências, -2 em Leitura e -2 em Matemática. As mudanças são pequenas e indicam, de forma geral, estabilidade. A questão estratégica passa a ser como transformar estabilidade em crescimento consistente. Temos dois desafios simultâneos: elevar uma grande parcela que ainda não consolida competências fundamentais e ampliar significativamente a presença de alunos nos níveis mais elevados.
A crise da leitura é também uma crise de atenção
Entre os achados mais importantes do PISA 2025 está a deterioração da leitura. Entre 2018 e 2025, o desempenho caiu em cerca de três quartos. Na média, a queda acumulada foi de aproximadamente 25 pontos. O movimento começou antes da pandemia e aponta para pressões mais profundas sobre os hábitos de leitura e aprendizagem (OECD, 2026, Annex A1; Box I.2.3).
O relatório é revelador quando analisa que tipo de tarefa passou a gerar mais dificuldade: as maiores quedas aparecem em atividades com textos mais longos e em processos que exigem avaliar, refletir, lembrar informações anteriores e integrar diferentes partes ou fontes. Tarefas de localização pontual de uma informação foram menos afetadas. O estudante contemporâneo encontra dificuldade crescente quando precisa permanecer mais tempo dentro de um argumento.
Entre 2018 e 2025, a proporção de “hasty readers” (leitores que respondem rapidamente e erram) subiu de cerca de 7% para 11%. O relatório também identifica piora mais acentuada nas partes finais da avaliação, sinal compatível com redução de atenção sustentada, persistência ou confiança diante de tarefas difíceis (OECD, 2026, Box I.2.3, pp. 95-99). Ler profundamente exige vocabulário, conhecimento de mundo, fluência e hábitos de atenção. Um texto longo pede que o leitor permaneça, recorde, relacione, infira, avalie e resista à pressa. Em uma cultura de fragmentação, preservar tempo para leitura extensa torna-se uma decisão pedagógica de primeira ordem.
Esforço intelectual e perseverança: aprender a atravessar o difícil
O relatório também observa mudanças na maneira como os estudantes se relacionam com a aprendizagem. Em média, 60% afirmam empregar esforço adicional quando o trabalho se torna desafiador e, desde 2022, essa proporção diminuiu em 32 sistemas de ensino. Em muitos países, há queda na proporção de estudantes que demonstram interesse em aprender coisas novas. Assim, até que ponto a escola ajuda o aluno a atravessar uma dificuldade produtiva? Aprender envolve tensão cognitiva. O estudante encontra uma ideia que ainda não domina, tenta compreendê-la, erra, recebe orientação, revisa procedimentos e retorna ao problema com maior clareza. Quando toda dificuldade é removida antecipadamente, parte importante desse processo desaparece.
A perseverança também é ensinada e cresce quando o currículo possui progressão, quando o professor explica com clareza, quando tarefas exigentes são proporcionais à preparação do aluno e quando o feedback aponta um caminho concreto para avançar. A escola pode formar uma cultura em que esforço intelectual seja percebido como parte normal do aprendizado.
Tecnologia e inteligência artificial: quem governa a atenção e quem realiza o pensamento?
O relatório encontra uma associação positiva entre uso limitado ou moderado de dispositivos digitais para aprendizagem e desempenho. Quando esses dispositivos são usados para lazer durante o período escolar, a relação se inverte e aparece associada a resultados inferiores. Em média, 28% dos estudantes relatam que colegas se distraem com dispositivos em praticamente todas ou na maioria das aulas de Ciências. A pergunta pedagógica central passa a ser: quem governa a atenção? Dispositivos podem ampliar visualização, acesso, feedback e investigação. Ambientes digitais de alternância rápida de estímulos também competem com a atenção sustentada exigida por leitura, resolução de problemas e estudo.
Os dados do PISA indicam uma relação complexa entre uso de IA e desempenho. Em determinadas tarefas escolares, estudantes que relatam não usar IA apresentam resultados superiores aos usuários; em usos gerais, usuários semanais e não usuários têm desempenho semelhante. O relatório observa resultados ligeiramente melhores quando o uso frequente vem acompanhado de oportunidades de desenvolver alfabetização em IA e avaliar informações geradas por essas ferramentas..
A recomendação pedagógica central é preservar o esforço cognitivo que produz compreensão. Isso oferece às escolas um critério simples para avaliar qualquer ferramenta: depois de utilizá-la, quem realizou o pensamento? Quando a IA apoia feedback, prática, pesquisa, comparação de hipóteses e revisão, ela pode servir à aprendizagem. Quando executa leitura, síntese, argumentação e resolução no lugar do estudante, a escola precisa investigar o que efetivamente foi formado.
Profundidade curricular, professor e ambiente: as condições concretas da aprendizagem
Entre as recomendações mais significativas do relatório está a defesa de foco e profundidade. A OCDE propõe expectativas elevadas e consistentes em Leitura, Matemática e Ciências, acompanhadas de um currículo que privilegie conhecimentos essenciais ensinados com domínio real.
Essa recomendação toca um problema conhecido pelas escolas brasileiras: a sensação de que sempre há conteúdo demais e tempo de menos. O sucesso curricular precisa aparecer naquilo que o estudante compreendeu, reteve e consegue mobilizar. Percorrer uma longa lista de tópicos perde valor quando a aprendizagem permanece superficial.
Segundo a Tabela I.7, o índice de apoio percebido do professor no Brasil é de 0,35, um valor vastamente superior à média da OCDE, que é de apenas 0,03. Este dado é o nosso maior diferencial competitivo porque confirma que o relacionamento professor-aluno é o pilar mais robusto do nosso sistema. Sob a perspectiva cristã, entendemos que a educação é, em sua essência, uma atividade humana alimentada por relacionamentos e confiança. O fato de os alunos brasileiros sentirem que seus professores se importam é uma vantagem humana que as escolas confessionais já valorizam em sua missão de discipulado. O desafio, agora, é converter esse capital relacional em motor para a excelência acadêmica.
O ambiente escolar também participa desse quadro. Clima disciplinar, apoio docente, segurança, bullying, faltas, atrasos e distrações aparecem relacionados à experiência de aprendizagem. Uma sala de aula precisa oferecer condições concretas para ouvir, perguntar, corrigir, tentar novamente e concentrar-se. Ordem pedagógica protege tempo de aprendizagem.
O paradoxo brasileiro e a pergunta que permanece
Desde 2015, o Brasil ampliou em cerca de quatro pontos percentuais a cobertura da população de 15 anos representada pelo PISA e manteve resultados relativamente estáveis nas três áreas. O país avançou em inclusão e conseguiu preservar suas médias enquanto incorporava mais jovens à trajetória educacional. O próximo passo exige converter acesso em domínio. Permanecer na escola precisa significar avançar no conhecimento.
Quanto tempo os alunos passam semanalmente lendo textos longos? Os professores conseguem identificar aquilo que cada turma realmente dominou? Há revisão cumulativa? O uso do celular possui regras claras? A IA amplia o raciocínio ou encurta o caminho cognitivo? Os estudantes com maiores lacunas recebem intervenção suficientemente cedo? A cultura escolar comunica que aprender exige esforço e que esse esforço tem sentido?
Uma escola cristã começa essa resposta com uma convicção anterior a qualquer indicador: cada estudante é uma pessoa criada à imagem de Deus, dotada de racionalidade, vontade, afetos e responsabilidade, chamada a conhecer a verdade, desenvolver sabedoria e colocar seus dons a serviço do próximo. Essa antropologia transforma a maneira como interpretamos os dados.
O PISA 2025 também recorda algo essencial: em um mundo de inteligência artificial, a educação continua profundamente humana. Aprender depende de atenção, julgamento, relação, confiança, prática e esforço. Conhecimento fundamental importa, professores importam, ambiente de sala importa e profundidade importa.
Em uma época de respostas instantâneas, continuaremos formando estudantes capazes de prestar atenção? Em uma época de textos fragmentados, continuaremos formando leitores capazes de acompanhar um argumento até o fim? Em uma época em que ferramentas podem produzir respostas por nós, continuaremos ensinando nossos alunos a raciocinar, avaliar, discernir e criar?
A resposta será escrita nas escolhas cotidianas de currículo, sala de aula, formação docente, parceria com as famílias e cultura escolar. É nesse trabalho paciente que uma escola transforma informação em conhecimento, conhecimento em sabedoria e aprendizagem em serviço.
Nesse cenário, a ACSI Brasil reafirma seu compromisso de caminhar ao lado das escolas cristãs oferecendo recursos que ajudem a transformar diagnóstico em prática pedagógica consistente. Por meio de seu catálogo de curadoria, reunimos obras previamente avaliadas para uso da Educação Infantil ao Ensino Médio, apoiando escolas na seleção de conteúdos coerentes com sua identidade cristã e com seus objetivos formativos. Para instituições bilíngues e internacionais, contamos com livros didáticos importados nas áreas de Inglês, Matemática e Ciências, desenvolvidos com integração bíblica e pensados para unir excelência acadêmica, intencionalidade pedagógica e cosmovisão cristã. Em um contexto que exige mais profundidade, discernimento e solidez na formação dos alunos, escolher bons materiais passa a fazer parte da própria responsabilidade educacional da escola.
Referência
OECD. PISA 2025 Results (Volume I): Future-Ready Students. Paris: OECD Publishing, 2026.
Dados e interpretações estatísticas citados neste artigo foram extraídos do Volume I do PISA 2025, especialmente do Prefácio, Resumo Executivo, Capítulo 2, Capítulo 4 e Anexo A1.