Vivemos em um momento histórico em que, embora se possa notar o esforço pela inclusão das Artes no currículo escolar, a educação artística ainda é desvalorizada. De modo geral, aliás, a Arte é vista atualmente como mero acessório à vida humana, e o envolvimento com as Artes tende a ser visto como um hobby, e não como um trabalho rigoroso. Uma cosmovisão cristã parte do princípio de que toda a diversidade de aspectos da realidade foi criada por Deus, dentre eles o aspecto estético. Este fato confere a ele dignidade inerente. Ele é tão importante quanto os demais e cumpre um papel fundamental na existência humana.
Nas palavras do filósofo cristão Rookmaaker:
Deus deu à humanidade a capacidade de fazer coisas belas: compor músicas, escrever poemas, fazer esculturas e decorar coisas. As possibilidades artísticas existem para serem percebidas e executadas por nós e para receberem uma forma concreta. Deus deu isso à humanidade e seu sentido está exatamente nessa doação (…) a arte tem seu próprio significado como criação de Deus – ela não precisa de justificativas. Sua justificativa é ser uma possibilidade dada por Deus. Não obstante, ela pode desempenhar muitas funções. Isso é prova da riqueza e da unidade da criação de Deus.[1]
De acordo com uma visão cristã de mundo, portanto, a beleza não é mero acessório, mas algo sem o qual a vida humana seria menos rica e menos significativa. Logo, toda e qualquer proposta curricular fundamentada em uma visão de mundo biblicamente orientada não pode, em hipótese alguma, prescindir da valorização desta disciplina.
De modo prático, o ensino de Artes precisa levar em conta dois princípios básicos. O primeiro deles é o desenvolvimento das competências criativas do aluno. De acordo com a cosmovisão cristã, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, e uma das implicações deste fato é sua habilidade criativa. Deus é Criador. E o homem, como ser criado à imagem e semelhança de Deus, é um ser criativo. Por isso, a educação em Artes deve incentivar o aluno à produção, visando ao desenvolvimento de suas habilidades. Neste ponto, tendo em vista que a cosmovisão cristã concebe o aspecto estético como um dos elementos essenciais da realidade criada, a produção artística não pode ser proposta como produto de aleatoriedade despropositada, mas de ordem e propósito. A arte possui seus esquemas, envolve o conhecimento de técnicas e habilidades, o manuseio adequado de ferramentas, tudo para a produção de algo no qual a beleza seja mais que mero aditivo.
O segundo princípio está relacionado com o caráter cultural da Arte. Toda produção artística é uma produção cultural. Com isso, afirmamos que é no contexto de uma determinada cultura que toda obra de arte é produzida. Por isso, o segundo objetivo da disciplina de Artes é compreender os diversos períodos de produção artística e suas características próprias. Ou seja, além de considerar a produção, a disciplina deve considerar a História da Arte.
Na compreensão da História da Arte, a cosmovisão cristã exerce um papel preponderante, primeiramente por seu caráter crítico. Nisso encontramos uma divergência com a visão das Artes no mundo contemporâneo. Uma das características do estudo contemporâneo das Artes é a suspensão do caráter minimamente objetivo e universal do juízo estético. Isso se deve ao fato de, atualmente, juízos estéticos serem concebidos como meros produtos da subjetividade humana, o que, por sua vez, resulta da ausência de um referencial transcendente, que normatize a realidade. Uma visão cristã das Artes não nega seu caráter subjetivo, nem a diversidade das possibilidades estéticas dos diversos momentos históricos e culturais. Fazê-lo seria negar ao campo estético a capacidade criativa do homem, resultante de sua imagem e semelhança com o seu Criador. Mas, por outro lado, uma visão cristã da
Arte não pode conceber juízos estéticos como meros produtos da subjetividade humana, pois isso seria ignorar as implicações de sua crença na Criação.
O fato de que o elemento estético foi criado implica o fato de que há normas estabelecidas pelo Criador que devem guiar os juízos estéticos. Como já dizia o filósofo das artes Rookmaaker: “A vida e a arte são complexas demais para aplicarmos regras legalistas. Porém não significa que não há normas”. [2] Uma visão cristã da Arte, portanto, deve ser uma visão crítica, que parte do pressuposto de que é possível distinguir a boa arte da arte ruim, com base em diversos critérios, dentre eles: habilidade, qualidade e adequação. [3]
Além disso, a Arte pode ser avaliada por seu conteúdo. Outro impacto da cosmovisão cristã no estudo da História da Arte é a percepção de que a Arte, enquanto produto cultural, é sempre o veículo de uma cosmovisão. Embora a Arte possa ser admirada pela simples função de expressão estética, o ato criativo está sempre carregado de um substrato simbólico, produto das representações que expressam a relação do artista com o meio de onde se originou sua perspectiva artística. Como toda produção cultural humana, a Arte nunca é neutra e desinteressada.
Nesse sentido, é possível dizer que, para a cosmovisão cristã, existe uma relação sempre presente entre Arte e verdade. A Arte é formada por dois elementos centrais entrelaçados: comunicação e forma. “A comunicação acontece sempre por meio da forma, e a forma sempre comunica valores e significados”. [4] Isto significa que a Arte pode ser julgada também pelo seu “conteúdo, seu significado e a qualidade do entendimento acerca da realidade que está incorporada nela”.[5] Uma obra de Arte reflete sempre a visão de mundo de um autor e de uma época específicos. E se considerarmos que qualquer cosmovisão possui um substrato religioso, podemos afirmar que uma das principais contribuições da cosmovisão cristã ao estudo da Arte, neste segundo sentido, diz respeito à verificação do papel dos compromissos fiduciários na produção artística, ou seja, de como a fé e os valores de um determinado povo ou época se revelam através da Arte e influenciam os critérios de produção da mesma.
Assim, à luz de uma cosmovisão cristã, o aluno de Artes deve ser incentivado a:
- Perceber-se como ser criado à imagem e semelhança de Deus, através do reconhecimento de sua habilidade criativa;
- Interagir com diversos materiais, instrumentos e procedimentos de produção, a fim de aprimorar suas competências criativas;
- Reconhecer as características das diversas manifestações artísticas e seus processos de produção à luz dos períodos históricos que os originaram;
- Compreender a arte como importante manifestação cultural e veículo de uma cosmovisão;
- Verificar a influência dos compromissos de fé de uma cultura em sua produção artística;
- Desenvolver relações interdisciplinares entre o conteúdo de Artes e os demais conteúdos programáticos.
[1] ROOKMAAKER, H. R. A arte não precisa de justificativa, p.46.
[2] ROOKMAAKER, H. R. A arte não precisa de justificativa, p. 61.
[3] Cf. ROOKMAAKER. A arte não precisa de justificativa, p. 13.
[4] ROOKMAAKER, H. R. A arte não precisa de justificativa, p. 49.
[5] ROOKMAAKER, H. R. A arte não precisa de justificativa, p. 51.
Fonte: eepequenoaprendiz.com.br