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Halloween, discernimento e memória: por que a escola  cristã escolhe não celebrar 

18/10/2026

Fantasias, abóboras, monstros, caveiras, fantasmas, filmes, brincadeiras e campanhas comerciais passam a ocupar vitrines, redes sociais, condomínios e, em muitos contextos, o próprio calendário escolar. O Halloween chega embalado como diversão, estética e experiência coletiva. Diante disso, a comunidade educacional cristã precisa examinar o que significa transformar uma prática cultural em celebração institucional e quais sentidos essa escolha comunica aos alunos. 

A escola confessional existe para transmitir conteúdos e formar percepções, afetos, hábitos e critérios pelos quais crianças e jovens aprenderão a interpretar a realidade. Por isso, a decisão de não celebrar o Halloween precisa ser sustentada por razões mais consistentes do que medo, reação cultural ou explicações simplificadas sobre sua origem. Estudar uma manifestação cultural e incorporá-la ao calendário como celebração são movimentos diferentes. 

TODA CELEBRAÇÃO ENSINA 

Celebrações selecionam acontecimentos que merecem memória, repetem símbolos, despertam afetos e dizem à comunidade: “isto importa”. Quando uma família comemora um aniversário, afirma o valor daquela vida e de sua história. Quando cristãos celebram a Páscoa, proclamam a morte e a ressurreição de Cristo. Quando uma instituição inclui determinada festa em seu calendário, convida os alunos a participar e atribui significado àquilo que celebra. 

Somos formados pelo que sabemos, hábitos, rituais e práticas que educam nossos amores. Símbolos e celebrações também ensinam, mesmo quando nenhuma aula formal acontece. O debate sobre Halloween ultrapassa a pergunta sobre fantasias porque envolve o repertório simbólico que deseja tornar familiar, celebrativo e afetivamente significativo aos alunos. 

O Halloween contemporâneo possui uma história complexa, formada por camadas religiosas, folclóricas, culturais e comerciais. Uma abordagem responsável reconhece essa diversidade e evita atribuir a cada costume moderno a continuidade direta de um único rito antigo. Sua forma atual, contudo, recorre amplamente a imagens de morte, medo, espíritos, bruxaria, ocultismo e monstruosidade. 

CONHECER A CULTURA NÃO SIGNIFICA CELEBRÁ-LA 

Uma educação cristã madura prepara os alunos para compreender manifestações culturais e avaliá-las à luz de sua fé. Formar discernimento exige ensinar a compreender antes de julgar. Uma aula de História pode estudar práticas religiosas do Egito Antigo sem transformá-las em devoção. A Literatura pode analisar uma tragédia sem ensinar desespero. O currículo pode examinar o Halloween, sua história, símbolos e presença na cultura sem convertê-lo em celebração institucional. 

Romanos 12:2 relaciona discernimento e renovação da mente: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente.” Preparar alunos para viver no mundo envolve ajudá-los a reconhecer pressupostos, comparar narrativas e avaliar práticas à luz das Escrituras. Esse exercício alcança a música, o cinema, as redes sociais, o consumo, a tecnologia e outras expressões culturais. 

QUEM GOVERNA A REALIDADE? 

Abraham Kuyper contribui para essa reflexão ao apresentar uma visão de vida que abrange religião, política, ciência, arte e sociedade. Nessa perspectiva, toda a realidade permanece debaixo do governo de Deus e deve ser interpretada diante dele. A fé cristã orienta a compreensão de todas as áreas da existência. 

Essa compreensão ajuda a evitar duas respostas frágeis à cultura: assimilação (incorporar uma prática simplesmente porque ela se tornou popular, comercialmente relevante ou socialmente esperada) ou isolamento intelectual (evitar temas culturais sem oferecer aos alunos categorias para compreendê-los). A presença com discernimento exige conhecer, examinar e avaliar a cultura. Arte, diversão, imaginação e calendário expressam concepções sobre a vida e participam da formação dos alunos. Sob o senhorio de Cristo, uma comunidade confessional possui liberdade para perguntar: isso corresponde àquilo que desejamos ensinar, tornar familiar e celebrar? 

A resposta ao Halloween pode ser sustentada por essa avaliação, sem recorrer ao medo ou tratar toda representação de morte e escuridão como incompatível com a fé cristã. A própria Escritura fala com seriedade sobre morte, sofrimento, juízo e realidade espiritual. A diferença está na narrativa que organiza essas realidades. Hebreus apresenta Cristo como aquele que veio libertar os que viviam “escravizados pelo medo da morte” (Hb 2:15). O cristianismo encara a morte como inimiga, reconhece a realidade do mal e anuncia a vitória de Cristo sobre ambos. Isso permite tratar esses assuntos com seriedade, sem banalizá-los ou lhes conceder fascínio indevido. 

UM CALENDÁRIO TAMBÉM REVELA AQUILO QUE UMA COMUNIDADE AMA 

Quando se decide que uma celebração não corresponde à identidade confessional, surge a pergunta: “o que faremos no lugar?” Criar uma “versão cristianizada” da mesma estrutura mantém a instituição reagindo ao calendário estabelecido pela cultura ao redor. Trocam-se os símbolos, muda-se o nome e preserva-se a expectativa de oferecer uma festa equivalente. A escolha do calendário precisa partir de uma pergunta anterior: o que merece ser lembrado e celebrado porque pertence à história que desejamos ensinar? Essa pergunta orienta o uso do calendário como ferramenta curricular, capaz de expressar memória, convicção e identidade. 

O dia 31 de outubro possui relevância própria: nessa data, em 1517, Martinho Lutero enviou suas 95 Teses em meio à controvérsia sobre as indulgências. A imagem de Lutero pregando-as à porta da Igreja do Castelo de Wittenberg tornou-se símbolo do movimento, embora historiadores discutam os detalhes desse episódio. A associação da data com o início de uma controvérsia decisiva para a Reforma Protestante permanece historicamente segura. 

O estudo da Reforma tem lugar próprio no currículo. Em História, permite examinar o contexto religioso, político e tecnológico do século XVI. Em Língua e Literatura, entram tradução bíblica, circulação de textos, argumentação e leitura. Em Música, o canto congregacional e os hinos. Em Arte, a iconografia e a produção visual do período, cuja circulação se ampliou com a imprensa. Em Filosofia e Teologia, autoridade, consciência, revelação, graça, fé e centralidade de Cristo. Esse trabalho oferece aos alunos conhecimento de sua tradição: eles conhecem pessoas e ideias que atravessaram conflitos reais e percebem que convicções produzem consequências na Igreja, na educação, na família e na sociedade. 

João 1:5 oferece uma imagem para essa formação: “A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram”. A passagem se refere a Cristo e orienta o modo como examinamos nossa própria tradição. A Reforma também precisa ser avaliada à luz de sua Palavra, sem idealizar o movimento ou reduzir a história cristã anterior a ele à escuridão. 

UMA DECISÃO QUE PRECISA SER EXPLICADA 

A decisão de uma instituição cristã de não celebrar o Halloween tem valor formativo quando professores, famílias e alunos compreendem suas razões. Toda celebração comunica o que uma comunidade considera digno de memória e participação; seus símbolos, hábitos e rituais participam da formação dos afetos e da imaginação. Por isso, a escola precisa avaliar a coerência entre as práticas que acolhe e as convicções que orientam seu ensino. 

Essa clareza permite à escola explicar sua escolha sem alarmismo e avaliar práticas culturais sem adotá-las apenas por sua popularidade. O Halloween continuará presente nas vitrines, nas redes sociais e nas conversas dos alunos. A tarefa educacional permanece: formar pessoas capazes de compreender a cultura e discernir os sentidos e as consequências de suas práticas. 

A identidade de uma comunidade cristã se expressa nas convicções que orientam seu ensino e seu calendário. Ao explicar suas escolhas, a escola oferece aos estudantes critérios para discernir, uma história à qual pertencer e uma verdade digna de ser conhecida, amada e celebrada. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Internacional (NVI).  

KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2025. 208 p. 

Nota editorial 

O argumento concentra-se na forma contemporânea do Halloween e em suas implicações para a formação confessional e pedagógica. A decisão de não celebrá-lo não depende da afirmação de uma origem histórica única nem de uma continuidade direta entre práticas antigas e costumes atuais. A distinção central é entre compreender uma manifestação cultural e incorporá-la como celebração institucional.